Sábado, 21 de Outubro de 2017
Por Olavo de Carvalho  |  Categoria: Diário  |  Fonte: Folha de São Paulo
Sexta, 06 de Outubro de 2017 - 16:57
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Polêmica

Na polêmica da nudez no MAM, as duas facções em luta estão cegas

Um detalhe significativo, nos dois casos em questão, foi a dupla e complementar cegueira das facções em luta.

A linguagem da propaganda política é toda feita de slogans e chavões que não se destinam a descrever estados de coisas, mas a gerar efeitos emocionais diretos, quase que por reflexos condicionados, sem passar pela percepção do estado de coisas.

Numa situação normal, essa linguagem é contrabalançada pela da análise política, que quebra o feitiço das palavras e tenta mostrar o que, por trás delas, está em jogo.

Infelizmente, no Brasil, os jornalistas e intelectuais, em massa, se adaptaram gostosamente à missão de "agentes de transformação social", na qual a análise objetiva só pode atrapalhar e tudo o que interessa é levar a plateia a identificar-se emocionalmente com este ou aquele grupo, amar e odiar, desejar e temer, aplaudir e apedrejar.

A propaganda, em suma, tornou-se a única atividade intelectual concebível.

O primeiro e mais óbvio resultado é que ninguém, nessa atmosfera, consegue distinguir entre os símbolos verbais e as forças sociais reais que eles em parte designam, em parte encobrem.

Os episódios do "Santander Cultural" e do "MAM-SP", por exemplo, opõem os adeptos dos "direitos das minorias" aos defensores da "família".

Nessa luta de slogans, os membros da primeira facção nem de longe percebem que a sua política "multicultural"; só pode produzir, como resultado objetivo, a destruição de todas as resistências morais e culturais ao poder avassalador dos grupos bilionários que promovem a "transformação social"; e desembocar no império absoluto do grande capital, que, como "esquerdistas"; que imaginam ser, odeiam da boca para fora.

Já os apóstolos da "família" apegam-se à defesa desse símbolo verbal, sem notar que quem está sendo ameaçado não é "a família" enquanto valor genérico, e sim algumas famílias, as da massa trabalhadora, enquanto as famílias dinásticas que promovem a destruição das primeiras se consolidam no patriarcalismo hierárquico estrito que é a raiz e fundamento do seu poder.

A sociedade que o "multiculturalismo" anuncia não é a gandaia geral que o moralismo conservador tanto abomina e teme, mas uma sociedade de tipo romano em que só os ricos e poderosos têm o privilégio de possuir uma família estruturada, enquanto o povão se esfarela numa poeira de átomos soltos, sem pais nem mães, nem tradição, nem passado, nem referência - a massa de manobra ideal para os engenheiros sociais a soldo da elite bilionária.

A guerra dos símbolos, assim, encobre a disputa entre forças sociais que permanecem invisíveis a ambas as facções militantes, ambas a serviço de objetivos que não são os delas e que transcendem seu horizonte de consciência.

Um detalhe significativo, nos dois casos em questão, foi a dupla e complementar cegueira das facções em luta.

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